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O que é o IGF e porque se discute a governação da Internet

Da cimeira WSIS de 2005 ao Fórum de Governação da Internet: quem escreve as regras da rede e onde Portugal participou.

Uma sessão plenária de um fórum internacional de governação da Internet.
Uma sessão plenária de um fórum internacional de governação da Internet. · Fotografia: This image is a work by Wikipedia and Wikimedia Commons user C.Suthorn. When reusing, credit me as described in the Licensing information below. I would appreciate being notified (wikimail, talk page, email, Social Media) if you use my work outside Wikimedia. Do not copy this image illegally by ignoring the terms of the license below, as it is not in the public domain. If you would like special permission to use, license, or purchase the image please contact me to negotiate terms. More of my work can be found in my personal gallery or at my Peertube channel. A prepared attribution especially for use in Social Media and Print (newspapers, flyers, books, murals, mousepads, mugs, posters, t-shirts) can be copied here / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Quem escreve as regras da Internet? Não existe um governo mundial da rede, mas existe um lugar onde a pergunta se discute todos os anos: o IGF — Internet Governance Forum, o Fórum de Governação da Internet. Foi criado no âmbito da Organização das Nações Unidas na segunda fase da Cimeira Mundial sobre a Sociedade da Informação (WSIS — World Summit on the Information Society), que decorreu em Tunes, na Tunísia, de 16 a 18 de novembro de 2005. O fórum é «multistakeholder»: à mesma mesa sentam-se governos, empresas, comunidade técnica e sociedade civil. Não é um parlamento da rede — o que produz são «resultados» (outcomes), na terminologia usada pela própria ONU, e não legislação — mas é lá que se torna público quem decide o quê.

De Tunes a Nairobi: seis reuniões em seis anos

O mandato saído de Tunes cumpriu-se num ciclo anual que a UMIC — então o organismo público português com a missão de coordenar as políticas para a sociedade da informação — ia registando no seu sítio. As primeiras edições foram estas:

As seis primeiras reuniões do IGF, tal como registadas pela UMIC
Reunião Cidade e país Datas
1.ª Atenas, Grécia 30 de outubro a 2 de novembro de 2006
2.ª Rio de Janeiro, Brasil 12 a 15 de novembro de 2007
3.ª Hyderabad, Índia 3 a 6 de dezembro de 2008
4.ª Sharm El Sheikh, Egito 15 a 18 de dezembro de 2009
5.ª Vilnius, Lituânia 14 a 17 de setembro de 2010
6.ª Nairobi, Quénia 27 a 30 de setembro de 2011

A reunião de Nairobi decorreu no United Nations Office at Nairobi (UNON) sob o tema geral «Internet as a catalyst for change: access, development, freedoms and innovation» — a Internet como catalisador da mudança: acesso, desenvolvimento, liberdades e inovação. Reuniu mais de 2.000 participantes presenciais, cuja repartição pelos grupos geográficos da ONU foi a seguinte: 53% da região africana, 29% da Europa e outros países ocidentais, 11% da Ásia, 4% da América Latina e Caraíbas e 3% da Europa Oriental. Lido hoje, esse mapa de presenças — mais de metade africana — já dizia onde passava a discutir-se o futuro da rede.

Um ecossistema de instâncias, não um trono

O IGF é o palco mais visível, mas a governação da Internet reparte-se por um conjunto de organismos — e as notícias que a UMIC publicou em 2011 e 2012 formam um bom mapa desse ecossistema.

A ICANN — Internet Corporation for Assigned Names and Numbers, a entidade que trata dos nomes e dos números que fazem a rede funcionar — realizou a sua 42.ª reunião em Dakar, no Senegal, de 22 a 28 de outubro de 2011. Como habitualmente, decorreu em paralelo a 41.ª reunião do GAC, o comité consultivo governamental da ICANN, que junta representantes de governos de países, autoridades públicas de economias regionais e organizações intergovernamentais e se pronuncia sobre matérias de política pública relacionadas com as atividades da ICANN. À época, o GAC tinha mais de 100 membros, que em conjunto cobriam a localização de mais de 90% dos utilizadores da Internet, e mais de 15 observadores; à reunião de Dakar compareceram 49 membros — três por via remota — e 6 observadores.

À escala europeia existe o EuroDIG — European Dialogue on Internet Governance —, o fórum europeu de governação da Internet que funciona como antecâmara continental do IGF. A quarta edição realizou-se em Belgrado, na Sérvia, a 30 e 31 de maio de 2011, organizada em conjunto pelo Conselho da Europa, pela European Broadcasting Association, pelo Gabinete Federal da Comunicação da Suíça (OFCOM) e pela Diplo Foundation. Contou com cerca de 480 participantes no local e aproximadamente 100 ligados remotamente, muitos através de «hubs» do EuroDIG instalados em 12 cidades de 11 países — da Arménia ao Bangladesh, de Espanha à Ucrânia —, num esquema de participação remota que combinava difusão de vídeo em direto, transcrição textual em tempo real, tweets, redes sociais e wikis. Na totalidade, houve participantes de cerca de 60 países.

E havia ainda o debate de princípios: nos dias 18 e 19 de abril de 2011, no edifício Agora do Conselho da Europa, em Estrasburgo, a conferência «Liberdade na Internet: dos Princípios a Um Tratado Global?» distribuiu por seis painéis a questão de fundo — se o fluxo livre de informação à escala global é sustentável, que princípios devem reger a rede e que arquitetura dar à participação «multistakeholder».

A afinar o instrumento: o grupo de trabalho da CSTD

Criado o fórum, abriu-se a discussão seguinte: como melhorá-lo. A CSTD — Commission on Science and Technology for Development, a comissão para a ciência e a tecnologia ao serviço do desenvolvimento — é uma comissão subsidiária do ECOSOC, o Conselho Económico e Social da ONU, e foi aí que se instalou o grupo de trabalho dedicado às melhorias do IGF. A quinta reunião desse grupo decorreu de 20 a 22 de fevereiro de 2012, no Palácio das Nações, em Genebra.

O presidente do grupo, Peter Major (Hungria), propôs aos membros finalizar o relatório com base nas recomendações já consolidadas num documento de trabalho contínuo, partindo dos amplos acordos alcançados nas duas reuniões precedentes. As recomendações organizavam-se em cinco blocos: dar forma aos resultados das reuniões do IGF; as modalidades de trabalho — consultas abertas, o MAG (Multistakeholder Advisory Group) e o secretariado; o financiamento do fórum; o alargamento da participação; e as ligações do IGF a outros processos, mecanismos e entidades. É a agenda de uma instituição a consolidar-se: definir o que valem os seus «outcomes», como trabalha quem lhe prepara as sessões, quem paga, quem entra e com quem se articula.

E Portugal, onde participou?

A presença portuguesa neste tabuleiro passava pela UMIC. O sítio da agência mantinha «Relações Internacionais» e «Forum para a SI» entre as suas áreas de ação — este último com um fórum de discussão em linha que o Arquivo.pt captou em julho e agosto de 2010 e cujas listagens paginadas ultrapassam os 10.800 tópicos num único quadro — e documentava a participação de Portugal na cimeira mundial. Três exemplos concretos dessa presença, todos de 2010 e 2011:

  • Na OCDE, a proposta dos Estados Unidos para uma reunião de alto nível sobre a economia da Internet — realizada depois em Paris, a 28 e 29 de junho de 2011 — encontrou resistências iniciais de vários Estados-membros, mas recebeu desde o início o apoio decisivo de Portugal.
  • Na conferência ministerial sobre proteção de infraestruturas críticas de informação, realizada em Balatonfüred, na Hungria, a 14 e 15 de abril de 2011, foi o presidente da UMIC, Luis Magalhães, quem chefiou a delegação de Portugal, em representação do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, que tutelava a sociedade da informação; a delegação integrou Manuel Barros, diretor de segurança da ANACOM.
  • Nos grupos técnicos da OCDE, Luis Magalhães foi eleito a 17 de junho de 2010 para presidir ao WPIIS — o grupo sobre indicadores da sociedade da informação — com início de funções a 1 de janeiro de 2011, sendo já vice-presidente do comité ICCP desde o início de 2009; e Ana Cristina Neves, responsável de relações internacionais da UMIC, foi eleita a 3 de dezembro de 2010 vice-presidente do WPIE, o grupo sobre economia da informação, também a partir de 1 de janeiro de 2011.

A governação da Internet escreve-se também nesses corredores — comités da OCDE, comité governamental da ICANN, conferências ministeriais — e é aí que o arquivo mostra Portugal a marcar lugar.

O rasto que ficou nos arquivos

A agência que registava estas notícias fecharia pouco depois: a UMIC funcionou entre 2005 e 2012 e foi a FCT a suceder-lhe, a partir de 1 de março de 2012, na coordenação das políticas públicas para a sociedade da informação — percurso que contamos no texto sobre o que fez a UMIC entre 2005 e 2012. As reportagens sobre o IGF, a ICANN e o EuroDIG ficaram conservadas na captura que o Arquivo.pt fez do sítio da agência: é lá que se lê a página principal da UMIC tal como foi captada em junho de 2012, com a reunião de Genebra ainda em destaque.

O gesto concreto, para quem quiser confirmar cada data e cada número deste artigo, é abrir essa captura e procurar nela «IGF»: os dois textos de 2011-2012 — o balanço de Nairobi e a notícia de Genebra — são a fonte direta de quase tudo o que aqui está. A maneira de pesquisar essas memórias é o tema do texto sobre o Arquivo.pt e a memória da web portuguesa. Este artigo pertence ao caderno sociedade da informação.

Fontes e documentos
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