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Sociedade da informação e Estado digital

O que significa «sociedade da informação» — e o que ficou dessa ideia

De onde veio a expressão, o que prometia e o que dela subsiste quando quase tudo — Estado, escolas, comércio — passou a ser digital.

Estudantes trabalham em computadores portáteis numa biblioteca universitária.
Estudantes trabalham em computadores portáteis numa biblioteca universitária. · Fotografia: D00264450 / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

A «sociedade da informação» foi, durante cerca de duas décadas, o nome oficial de uma promessa: a de que as redes digitais, os computadores e a circulação eletrónica de dados reorganizariam a vida coletiva — o Estado, a escola, o comércio, a cidadania. Não designava apenas uma tecnologia nova; designava um programa político, com agências próprias, orçamentos e metas aferidas em rankings internacionais. Em Portugal, esse programa teve uma agência com a missão quase escrita no nome: a UMIC – Agência para a Sociedade do Conhecimento. Se hoje a expressão soa datada, é em grande parte porque cumpriu o que prometia — aquilo que era uma «política» passou a ser a forma corrente de as coisas funcionarem.

Uma expressão consagrada em cimeira mundial

Foi nas Nações Unidas que a expressão ganhou estatuto de objeto diplomático. A Cimeira Mundial sobre a Sociedade da Informação (WSIS – World Summit on the Information Society) teve a sua segunda fase em Tunis, na Tunísia, em novembro de 2005; dela nasceu o IGF – Internet Governance Forum, um fórum multistakeholder — Estados, empresas, sociedade civil e comunidade técnica à mesma mesa — que passou a reunir-se todos os anos: Atenas em 2006, Rio de Janeiro em 2007, Hyderabad em 2008, Sharm El Sheik em 2009, Vilnius em 2010 e Nairobi em 2011.

«Sociedade da informação» passava assim a nomear também uma pergunta de governação: quem decide os nomes e os números da rede, quem garante o acesso, quem protege quem usa. Em outubro de 2011, quando a ICANN realizou a sua 42.ª reunião, em Dakar, no Senegal, o comité consultivo governamental — o GAC — contava já mais de 100 membros, que em conjunto cobriam a localização de mais de 90% dos utilizadores da Internet, e mais de 15 observadores. Portugal participava nestas conversas com peso institucional: em junho de 2010, o presidente da UMIC, Luis Magalhães, tinha sido eleito na OCDE para presidir, a partir de 1 de janeiro de 2011, ao grupo de trabalho sobre os indicadores da sociedade da informação. A esse fórum e ao lugar que Portugal ocupou nele dedicamos o texto sobre o IGF e a governação da Internet.

O que a expressão prometia, na definição da época

A página inicial da UMIC, tal como ficou conservada numa captura de junho de 2012, apresentava a agência como «o organismo público português com a missão de coordenar as políticas para a sociedade da informação e mobilizá-la através da promoção de actividades de divulgação, qualificação e investigação». E o programa era declarado logo na abertura: o desenvolvimento tecnológico ao serviço de uma cidadania moderna e de progresso exigia «uma sociedade da informação inclusiva onde o conhecimento é um valor ético, social, cultural e económico fundamental que promove a criação de riqueza e emprego, a qualidade de vida e o desenvolvimento social».

Lida hoje, a frase define o horizonte da época com uma precisão que os resumos posteriores perderam: a sociedade da informação era um fim — inclusão, qualidade de vida, desenvolvimento — e não um meio, como mais aparelhos ou mais ligações. A agência que a promovia exerceu funções entre 2005 e 2012, tendo sucedido à Unidade de Missão Inovação e Conhecimento; esse percurso é o tema do texto sobre o que fez a UMIC entre 2005 e 2012.

Um programa que cobria quase tudo

O menu da mesma página mostra até onde ia a ambição. As «áreas de acção» da agência não se limitavam às telecomunicações: abrangiam Educação e Formação, Sociedade e Cidadania, Inclusão e Acessibilidade, Conteúdos Digitais, Infraestruturas e Segurança, e-Ciência, Redes de Conhecimento, Tecnologias Emergentes, Empresas, Serviços Públicos, Observação e Benchmarking e Relações Internacionais, além de um Fórum para a Sociedade da Informação. Sob estes títulos cabiam projetos tão diferentes entre si como a rede de Espaços Internet, a Rede Solidária, o Arquivo da Web Portuguesa, a PKI do Estado, a rede de CSIRT, o e-U Campus Virtual, a biblioteca do conhecimento b-on ou os programas de parceria com o MIT, a Carnegie Mellon e a Universidade do Texas em Austin.

O território também entrava na conta. No início de 2005 estavam em execução 25 projetos de Cidades e Regiões Digitais, aos quais se somaram depois sete novos: Vale do Minho Digital, Valimar Digital, Vale do Ave Digital, Guarda Digital, Coimbra Digital, Tâmega Digital e Metropolis Digital, este último na área do Grande Porto. E havia metas setoriais com resultados datados: a banda larga chegou a todas as escolas públicas em janeiro de 2006, depois de uma cobertura de 18% um ano antes — história contada no texto sobre as TIC nas escolas — e a rede sem fios do ensino superior passou de 8 para 57 instituições em 2005, caso do e-U Campus Virtual.

As provas que a própria época exibia

A página arquivada guarda ainda os indicadores que a agência destacava como vitrines do programa — a área «Observação e Benchmarking» existia precisamente para os colecionar. Três deles mostram bem o que «sociedade da informação» queria dizer quando era medida:

Três medições internacionais destacadas na página da UMIC em 2011
O que era medido Fonte e data da notícia Posição de Portugal
Serviços públicos em linha (administração pública eletrónica) Relatório de benchmarking da União Europeia de 2010, publicado pela Comissão Europeia; notícia de 21/02/2011 1.º lugar em 2009 entre 30 países (UE27, Islândia, Noruega e Suíça), com 100% nos dois indicadores desde novembro de 2009 — posição partilhada apenas com Malta; Portugal partira do 16.º e do 15.º lugares em outubro de 2004
Qualidade da banda larga Broadband Quality Study 2010, da Saïd Business School (Universidade de Oxford) e da Universidade de Oviedo, com apoio da Cisco; notícia de 07/03/2011 Um dos 14 países do mundo preparados para as aplicações avançadas da Internet, ao lado da Coreia, do Japão, da Suécia ou da Alemanha
Acessibilidade dos sítios dos governos Artigo no Journal of Information Technology & Politics (edição de janeiro de 2011), primeira análise global dos 192 Estados-membros da ONU; notícia de 03/05/2011 2.º lugar, com 97,57% de acessibilidade web, ultrapassado apenas pela Alemanha (98,72%)

Nem todas estas medições envelheceram da mesma maneira, e convém lê-las como o que eram: instrumentos de comparação internacional que a própria agência reunia. Mas dão a medida do que estava em jogo — não se tratava de ligar computadores, tratava de provar, indicador a indicador, que o Estado, a rede e a escola portuguesas tinham mudado de regime.

O que ficou quando a expressão saiu de cena

A agência extinguiu-se e a expressão perdeu atualidade administrativa. Desde 1 de março de 2012 é a FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia que sucede à UMIC na coordenação das políticas públicas para a sociedade da informação em Portugal, e o arquivo da agência foi integrado no Arquivo de Ciência e Tecnologia da FCT, na sequência da extinção.

O que ficou não foi o nome — foi o acabamento das coisas. Autenticar-se perante o Estado com o telemóvel, o gesto que explicamos no guia da Chave Móvel Digital, é a «sociedade da informação» transformada em rotina. As regras de acessibilidade que esses programas impuseram aos sítios públicos continuam a valer, como mostra o texto sobre o que é a acessibilidade web — e as ferramentas eram já dessa época: o avaliador automático eXaminator era disponibilizado gratuitamente desde dezembro de 2005 e o seu sucessor, o AccessMonitor, chegou em versão beta a 2 de fevereiro de 2011. Até a memória do período virou serviço público: o Arquivo.pt preserva milhões de ficheiros recolhidos da web desde a década de 1990 e permite pesquisá-los, prática que detalhamos no texto sobre a memória da web portuguesa.

O gesto concreto com que este texto se fecha é, precisamente, esse: abrir a página inicial da UMIC tal como o Arquivo.pt a captou em junho de 2012 e ler a definição no sítio onde ela foi publicada — com o menu das «áreas de acção», as notícias de benchmarking e o símbolo de certificação de acessibilidade no rodapé. É o documento-fonte deste artigo e a maneira mais direta de ver o que a «sociedade da informação» prometia antes de virar paisagem. Este artigo pertence ao caderno sociedade da informação e Estado digital.

Fontes e documentos
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