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Redes, ensino e conhecimento

Como funcionou o e-U Campus Virtual

Mais de 5.000 pontos de acesso e roaming entre instituições: a rede sem fios que fez do ensino superior português um único campus virtual.

Estudante segue uma aula à distância num computador portátil, com um caderno aberto ao lado.
Fotografia ilustrativa gerada para a revista.

Abrir o computador portátil numa universidade onde nunca se tinha entrado e ligar-se à internet com as credenciais da própria escola: foi isso que o e-U Campus Virtual tornou possível no ensino superior português. O projeto criou uma extensa rede sem fios que integrou as universidades e os institutos politécnicos do país num único campus virtual, com mais de 5.000 pontos de acesso e «roaming» interinstitucional, e incluiu ainda serviços, conteúdos e aplicações disponibilizados a todas as instituições. Foi concebido e coordenado pela UMIC – Agência para a Sociedade do Conhecimento, I.P., com o apoio técnico da FCCN – Fundação para a Computação Científica Nacional.

De 8 para 57 instituições num só ano

O salto deu-se em 2005. Nesse ano, o número de instituições do ensino superior com redes sem fios no âmbito do e-U Campus Virtual passou de 8 para 57, o que correspondeu a uma cobertura de 85% de todo o ensino superior. Ficaram abrangidas todas as universidades e todos os institutos politécnicos do ensino superior público — um conjunto de escolas com mais de 300 mil estudantes.

A expressão «campus virtual» era literal: em vez de cada escola gerir uma rede isolada, os pontos de acesso espalhados pelo país passaram a funcionar como um único campus distribuído, sobre o qual corriam também serviços e conteúdos comuns.

O que permitia o «roaming» interinstitucional

O mecanismo central era o «roaming» entre instituições: estudantes, professores e investigadores podiam, a partir de qualquer escola do ensino superior abrangida pelo projeto e em qualquer ponto do país, aceder ao sistema de informação e aos conteúdos da sua própria escola, tal como se lá estivessem. A autenticação fazia-se com as credenciais da instituição de origem e a rede local dava passagem — o mesmo princípio que ainda hoje faz funcionar a eduroam.

O fenómeno chegou a ser observado visualmente. Num projeto do IN+ – Centro de Estudos em Inovação, Tecnologia e Políticas de Desenvolvimento, foram produzidas imagens de um dia e de uma semana de utilização no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, em 2006. Nelas, quadrados a azul marcavam os pontos de acesso e cada segmento a verde indicava que um mesmo utilizador se tinha ligado, no período observado, através dos pontos unidos por esse segmento — o desenho de uma comunidade que circulava fisicamente entre pólos do campus sem perder a ligação.

Os números da utilização entre 2004 e 2008

A página original do projeto publicava gráficos com a evolução mensal de utilizadores e de sessões entre junho de 2004 e dezembro de 2008. Os valores de referência que a UMIC destacava eram estes:

Rede sem fios e-U: picos de utilização registados
Período Utilizadores mensais Sessões mensais
Junho de 2005 (maior valor mensal desse ano) Cerca de 7.000 Cerca de 1 milhão
Novembro de 2008 80.000, dos quais cerca de 10.000 em «roaming» a partir de um campus diferente do seu Mais de 7 milhões, das quais cerca de 0,6 milhões em «roaming»

Lidos em conjunto, os dois marcos dão a escala do crescimento: o número de utilizadores mais do que decuplicou e o de sessões mais do que septuplicou entre junho de 2005 e dezembro de 2008. E o «roaming» não era marginal: em novembro de 2008, cerca de um em cada oito utilizadores da rede estava ligado a partir de um campus que não era o seu.

Ligado ao mundo: a rede eduroam

A rede nacional não ficou fechada sobre si. Estava ligada à rede eduroam, que à época abrangia todos os países da União Europeia e vários outros da Europa (Andorra, Croácia, Islândia, Israel, Macedónia, Noruega, Sérvia, Suíça e Turquia), da Ásia e da Oceânia (Austrália, China, Japão, Nova Zelândia, Papua-Nova Guiné e Taiwan), além do Canadá.

Nessa federação internacional, Portugal distinguia-se por um indicador concreto: era o país com o maior número de utilizadores em «roaming» a partir do estrangeiro — 4.331 utilizadores «.pt» registados nos seis meses entre setembro de 2008 e fevereiro de 2009. A iniciativa recebeu grande reconhecimento internacional e foi, nas palavras da própria página da época, a maior rede sem fios académica do mundo, enquanto não começou a ser replicada em países maiores, como a França.

Mais do que cobertura: conteúdos, acessibilidade e acordos

O e-U Campus Virtual não era apenas infraestrutura de rádio. O projeto envolvia o desenvolvimento e a disponibilização de serviços e conteúdos académicos em cada uma das instituições abrangidas e exigia a conformidade com as regras de acessibilidade de conteúdos web para cidadãos com necessidades especiais, ao nível A das diretivas do W3C – World Wide Web Consortium. Um dos resultados apontados foi ter melhorado consideravelmente a acessibilidade dos sítios das instituições do ensino superior português na internet — tema que tratamos no texto sobre o que é a acessibilidade web.

Havia também acordos com fornecedores para facilitar o acesso a ferramentas de estudo. Com a Autodesk, a UMIC assinou dois protocolos: o Protocolo para Facilitar a Utilização de Software Autodesk no Ensino Superior, a 13 de dezembro de 2006, e o protocolo que permitiu disponibilizar software Autodesk gratuito para alunos, professores e investigadores do ensino superior, a 5 de janeiro de 2007.

O caso mais visível foi o Programa e-Universidade-Toshiba, lançado a 27 de maio de 2009 pela Toshiba Portugal em colaboração com as empresas Prológica, Microsoft e Autodesk e com a UMIC. O programa concretizava uma das iniciativas planeadas em 2008 entre a Toshiba Portugal e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, no âmbito da Rede de Investigação e Aprendizagem Toshiba, e destinava-se a facilitar o acesso à aquisição de computadores portáteis por estudantes e docentes do ensino superior.

Os computadores do programa — Intel Pentium Dual Core T4200 a 2,0 GHz, 4 GB de memória RAM, disco rígido de 250 GB — eram entregues com software instalado de interesse para estudantes e docentes: do lado Microsoft, MS Office Enterprise, MS Matemática, Visual Studio, Windows Server Administration Tools, Robotics Studio e Windows Media Encoder; do lado Autodesk, ferramentas de projeto assistido por computador como AutoCAD, Revit e Autodesk Inventor, e de sistemas geográficos de informação e multimédia como AutoCAD Map 3D e Raster Design. E vinham configurados para permitir automaticamente o acesso sem fios à internet nos campi do ensino superior, no âmbito do e-U Campus Virtual.

As modalidades de pagamento eram três: pagamento inicial de 110 euros e 36 prestações de 15 euros; pagamento inicial de 50 euros e 24 prestações de 25 euros; ou pagamento integral de 610 euros no ato da entrega. A aquisição a custo reduzido era possível com recurso ao sistema de crédito bancário sem fiador, com garantia mútua, instituído em Portugal desde 2007 — o banco Santander-Totta foi o primeiro a aderir, estando o programa aberto a outras entidades bancárias.

Somava-se ainda um benefício fiscal: a dedução no IRS até 250 euros na aquisição de um computador por estudantes ou famílias de estudantes, aprovada na Lei do Orçamento para 2006 para o período 2006-2008 e estendida pela Lei do Orçamento para 2009 até ao fim desse ano, era aplicável às aquisições feitas no programa. Quem pudesse usufruir da totalidade da dedução e optasse pelo pronto pagamento ficava com o computador e o software por 360 euros. O Programa e-Universidade-Toshiba integrava a iniciativa «e-U: e-Universidade» da UMIC, aberta a todos os fabricantes de computadores.

Onde ficou tudo isto

A página que serve de fonte a este texto foi atualizada pela última vez a 17 de maio de 2010 e ficou conservada no Arquivo.pt, tal como foi captada em julho de 2011. A própria agência encerraria pouco depois: a UMIC funcionou entre 2005 e 2012 e foi a FCT a suceder-lhe, a partir de 1 de março de 2012, na coordenação das políticas públicas para a sociedade da informação — percurso que contamos no texto sobre o que fez a UMIC entre 2005 e 2012. Em outubro de 2013, a FCT assumiu também as atribuições da FCCN.

O legado técnico não desapareceu: o «roaming» académico vive hoje na eduroam, disponibilizada como serviço de base da RCTS – Rede Ciência, Tecnologia e Sociedade, gerida pela FCCN, de que falamos no texto sobre a RCTS. Quem estuda ou trabalha numa instituição do ensino superior português continua a fazer o gesto de 2005: abre o portátil noutro campus, autentica-se com as credenciais da sua instituição e está ligado.

Para confirmar cada número deste artigo, o gesto concreto é consultar a página arquivada indicada acima — e a maneira de pesquisar essas memórias é o tema do texto sobre o Arquivo.pt e a memória da web portuguesa. Este artigo pertence ao caderno redes, ensino e conhecimento.

Fontes e documentos
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