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Redes, ensino e conhecimento

O que é a RCTS e porque nasceu em 1997

A rede que integrou escolas, universidades e investigação numa só rede de ciência e educação — e que continua a ser a espinha digital do conhecimento.

Estudantes circulam entre edifícios de um campus universitário.
Fotografia ilustrativa gerada para a revista.

A RCTS — Rede Ciência, Tecnologia e Sociedade — é a infraestrutura digital de conetividade e computação que serve a comunidade portuguesa de investigação e de ensino. Constituída em 1997 para assegurar uma rede integrada de investigação e educação, fez entrar as escolas — e depois as organizações não-governamentais — para a mesma rede que já ligava universidades e laboratórios, e continua hoje a ser a espinha digital sobre a qual assentam serviços como a eduroam, a resposta a incidentes de segurança ou as ligações de fibra ótica dedicadas à ciência.

Perceber a RCTS é perceber como se construiu a Internet académica portuguesa: antes de haver banda larga nas escolas ou redes sem fios nos campi, já existia uma rede gerida pela Fundação para a Computação Científica Nacional que ligava quem fazia ciência. Este artigo reconstrói esse percurso com as datas e os números que ficaram registados nas páginas da época.

De uma rede de ciência e educação a uma rede da sociedade

A RCTS nasceu de uma reformulação concretizada em 1997: a Rede de Ciência e Educação, gerida pela FCCN — Fundação para a Computação Científica Nacional, deu lugar à Rede Ciência, Tecnologia e Sociedade, criada com o objetivo de assegurar uma rede integrada de investigação e educação. A mudança de nome não era cosmética: ao acrescentar «Sociedade» ao antigo par «Ciência e Educação», a infraestrutura deixava de ser apenas a rede das universidades e dos laboratórios para se abrir a outros públicos.

Os efeitos foram imediatos. Durante 1997 foi assegurada a ligação de todas as escolas do 5.º ao 12.º ano, e nesse mesmo ano Portugal tornou-se um dos primeiros países a integrar as escolas na rede computacional de investigação e do ensino superior — a RCTS. Em 2001, o país foi também um dos primeiros a ligar todas as escolas à Internet por RDIS, a ligação por linha digital que antecedeu a banda larga.

Do lado do Estado, a operação assentava numa divisão de tarefas que se manteve durante anos: a ligação das escolas à Internet era garantida tecnicamente pela FCCN, com os custos suportados pela UMIC — Agência para a Sociedade do Conhecimento no caso das escolas do 1.º ciclo do ensino básico e pelo Ministério da Educação nas restantes.

O «S» de Sociedade: ONG e salas de aula na mesma rede

O alcance alargado da RCTS não ficou no nome. A Rede Solidária, criada em abril de 2001 para ligar à Internet organizações não-governamentais de cidadãos com necessidades especiais, tinha raízes precisamente na reformulação de 1997: foi a RCTS que passou a disponibilizar conetividade eletrónica e acesso à Internet a essas instituições. No final de 2002 integravam a rede 127 organizações; dois anos depois, no final de 2004, já eram 240.

Nas escolas, o mesmo princípio de rede partilhada gerou programas de acompanhamento. No início de 2002 foi aprovado o programa Internet@EB1, coordenado pela FCCN, que pôs escolas superiores de educação dos institutos politécnicos a acompanhar escolas do 1.º ciclo do ensino básico, com o objetivo de promover a utilização da Internet para fins educativos e a formação de professores em situações educativas concretas. No seu âmbito foram concedidos mais de 160 mil diplomas de competências básicas em Tecnologias de Informação e preparadas as páginas na Internet de mais de 7.500 escolas.

O resultado desse trabalho de fundo mediu-se em janeiro de 2006, quando todas as escolas públicas do 1.º ao 12.º ano ficaram ligadas em banda larga à Internet — com exceção de um pequeno número das que deixariam de funcionar no verão desse ano. Um ano antes, apenas 18% estavam ligadas em banda larga. Esse salto, que o Plano Tecnológico da Educação de agosto de 2007 viria a consolidar com metas como um mínimo de 48 Mbps de acesso em todas as escolas, está contado em detalhe na página sobre a chegada da banda larga às escolas portuguesas.

Anos mais tarde, a mesma lógica de infraestrutura partilhada estendeu-se ao ar: o e-U Campus Virtual, concebido e coordenado pela UMIC com apoio técnico da FCCN, criou uma rede sem fios que integrou universidades e institutos politécnicos num único campus virtual com mais de 5.000 pontos de acesso.

A rede em datas-chave

AnoMarco na história da rede
1997A reformulação da Rede de Ciência e Educação da FCCN cria a RCTS; é assegurada a ligação de todas as escolas do 5.º ao 12.º ano
2001Todas as escolas ficam ligadas à Internet por RDIS; nasce a Rede Solidária, servida pela conetividade da RCTS
2002Aprovado o programa Internet@EB1, coordenado pela FCCN para as escolas do 1.º ciclo
2006Em janeiro, todas as escolas públicas do 1.º ao 12.º ano passam a banda larga — um ano antes eram apenas 18%
2012A 1 de março, a FCT sucede à UMIC na coordenação das políticas públicas para a sociedade da informação
2013A 1 de outubro, a FCT assume as atribuições e competências da FCCN

O que a RCTS é hoje: conetividade, computação e serviços

Passadas quase três décadas, a definição publicada pela FCCN apresenta a RCTS como «a infraestrutura digital de conetividade e computação» dirigida à comunidade de investigação e de ensino, com a qual se asseguram a comunicação, a colaboração e o desenvolvimento de novo conhecimento científico. Através da rede, as instituições nacionais de ensino e investigação recebem um conjunto de serviços digitais avançados que lhes permitem desenvolver projetos nacionais e integrar ou aceder a projetos e recursos de investigação internacionais.

Podem aderir à RCTS as instituições do ensino superior, os laboratórios do Estado, os laboratórios associados, as unidades de I&D e outras unidades do sistema nacional de ciência e tecnologia. No terreno, a rede abrange o território continental com pontos de ligação em 24 cidades portuguesas, posicionados para conetar as respetivas instituições de ensino superior.

O catálogo atual de serviços é extenso e reservado aos membros da rede:

  • IP — o serviço de conetividade de base, apresentado como «a Internet do ensino e da ciência»;
  • eduroam — o pacote base que liga à Internet a comunidade académica e científica em todo o lado;
  • Plus, Lambda e Fibra — conetividade comutada de elevado desempenho, ligações ponto a ponto da mais avançada capacidade de comunicação e redes de fibra ótica criadas à medida;
  • RCTS CERT — a resposta a incidentes de segurança na rede;
  • VoIP e VideoCast — redução de custos nas comunicações de voz e difusão de eventos em direto pela Internet;
  • Estúdio — um estúdio profissional para a produção de conteúdos multimédia.

Quem fez e quem faz a rede

A operação técnica da RCTS pertenceu sempre à FCCN — incluindo nos anos em que a fatura da ligação das escolas era repartida entre duas entidades diferentes. A arquitetura institucional acima da rede, essa sim, mudou. Quando a UMIC foi extinta, a 1 de março de 2012, a FCT — Fundação para a Ciência e a Tecnologia, que iniciara atividades em agosto de 1997 como uma das sucessoras da JNICT — sucedeu-lhe na coordenação das políticas públicas para a sociedade da informação. Um ano e meio depois, a 1 de outubro de 2013, a própria FCT assumiu as atribuições e competências da FCCN. A página da RCTS continua a ser publicada no sítio da FCCN, com o conteúdo atualizado a 17 de março de 2026.

Fica, no fim desta leitura, um gesto concreto. Se trabalha numa universidade, num laboratório do Estado ou associado, numa unidade de I&D ou noutra entidade do sistema nacional de ciência e tecnologia, verifique no sítio da rede se a sua instituição consta da lista de entidades ligadas à RCTS e se a sua cidade está entre os 24 pontos de ligação do mapa de fibra — se não estiver, existe um formulário de pré-adesão para iniciar o pedido. Para continuar a ver onde esta espinha digital deixou marca — do campus sem fios à memória da web portuguesa guardada no Arquivo.pt — o percurso natural passa pelas páginas de redes e conhecimento destes Cadernos.

Fontes e documentos
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