
Uma primeira revisão de acessibilidade não exige ferramentas especiais nem um auditor externo: chega um navegador, o teclado e uma lista curta de verificações. A referência mais usada para esse exercício é o documento «Easy Checks – A First Review of Web Accessibility», da Iniciativa de Acessibilidade Web (WAI) do W3C – World Wide Web Consortium, que reúne verificações simples para perceber se uma página trata a acessibilidade, pelo menos, da forma mais básica. Este artigo traduz e contextualiza essas verificações — e recorda o que Portugal já fez neste campo.
O que estas verificações medem — e o que deixam de fora
As «Easy Checks» foram desenhadas para serem rápidas e fáceis, não exaustivas. Cobrem apenas alguns problemas de acessibilidade e podem ser executadas em qualquer página web; cada verificação explica o que se está a avaliar, porque é que isso importa e o que se deve procurar. A advertência dos autores é explícita: uma página pode parecer passar nestas verificações e, mesmo assim, manter barreiras de acessibilidade significativas — avaliar a acessibilidade de forma completa exige uma avaliação mais extensa.
Lidas em conjunto, as verificações dividem-se em três famílias: a informação que chega sem passar pelos olhos (texto alternativo, título, cabeçalhos), a navegação que dispensa o rato (ordem de tabulação, ligação de salto, foco visível) e a perceção do que está no ecrã (contraste, zoom, legendas). Junta-se um grupo sobre formulários, porque é aí que muita gente desiste quando algo falha.
Imagens: procurar o texto alternativo
O texto alternativo («alt text») é uma descrição curta que transmite a finalidade de uma imagem; é o que usam as pessoas que não a veem, através de um leitor de ecrã. A verificação consiste em percorrer as imagens da página e perguntar, de cada uma, se existe texto alternativo e se ele serve para alguma coisa: «grafico-vendas.png» descreve o ficheiro, não a imagem.
Duas situações ajudam a afinar o olhar, e vêm dos conselhos de redação da própria WAI: as imagens puramente decorativas não precisam de texto alternativo — obrigar a lê-las só cria ruído — e o texto deve transmitir a informação ou a função da imagem, não o seu aspeto. Na mesma família fica o texto das ligações: deve descrever o destino, e não ficar-se por «clique aqui» ou «leia mais».
Título da página e cabeçalhos: a estrutura que se ouve
O título da página aparece na barra ou no separador do navegador e é a primeira coisa que um leitor de ecrã anuncia: é por ele que a pessoa sabe onde está. Verificá-lo é abrir a página e ler o separador — um «Sem título» ou o nome da instituição repetido em todas as páginas são falhas imediatas. As dicas de redação da WAI acrescentam duas regras simples: o título deve distinguir a página das outras e pôr primeiro a informação mais relevante.
Os cabeçalhos comunicam a organização do conteúdo, como um índice. Os utilizadores de leitores de ecrã navegam frequentemente saltando de cabeçalho em cabeçalho, pelo que a verificação essencial é a da hierarquia: os cabeçalhos têm de estar marcados como cabeçalhos no código — os níveis vão de um a seis — e não apenas escritos em letra maior ou a negrito, porque a mudança de estilo visual não é pista suficiente para a tecnologia de apoio.
Só com o teclado: a ligação de salto e o foco visível
A experiência é simples de reproduzir: pousar o rato e percorrer a página com a tecla Tab. Dois elementos das «Easy Checks» avaliam-se nesse percurso. A ligação de salto («skip link») deve ser o primeiro elemento interativo da página e permite a quem usa teclado, leitores de ecrã ou outras tecnologias de apoio chegar depressa ao conteúdo principal, sem repetir o menu inteiro em cada página.
O foco de teclado é o indicador visível que identifica o elemento que tem o foco e se desloca à medida que se tabula. Para quem depende do teclado, saber qual a ligação ou o campo de formulário ativo é condição elementar; se o contorno de foco foi removido pelo design, a página torna-se inutilizável a olhos abertos. O teste deixa uma pergunta útil: consegue-se chegar a tudo — menu, formulário, botão de envio — apenas com o teclado?
Contraste, zoom e a língua da página
O contraste de cor é a diferença entre cores adjacentes: em geral o texto e o fundo, mas também os elementos interativos e o respetivo fundo, e partes de gráficos ou diagramas. Há pessoas que não conseguem ler um texto, nem encontrar um elemento, quando o contraste é insuficiente — e a falha nem sempre salta à vista de quem revê, porque um bom ecrã de secretária disfarça o que um telemóvel ao sol denuncia.
O zoom serve para ampliar texto e imagens, e algumas pessoas precisam dele para ler. A verificação pede que o conteúdo ampliado continue legível e utilizável: se o texto se sobrepõe, é cortado ou passa a exigir deslocamento horizontal constante, a página falhou. Há ainda uma verificação invisível mas elementar: a página deve identificar a sua língua principal, para que a tecnologia de apoio que lê o conteúdo em voz alta pronuncie corretamente as palavras.
Multimédia e formulários: o que falta quando falta texto
Nos conteúdos multimédia, três peças separam o acessível do excluído: as legendas, versão em texto da fala e dos sons não falados necessários para compreender o vídeo, apresentada com ele; as transcrições, o mesmo conteúdo disponibilizado à parte do vídeo, usadas por pessoas surdas, com dificuldade de audição ou com dificuldade em processar informação áudio; e a audiodescrição, que descreve a informação visual necessária para compreender o conteúdo, incluindo o texto apresentado no próprio vídeo.
Nos formulários, as etiquetas («labels») são os textos junto dos campos e devem dizer que informação introduzir ou que opção selecionar; toda a gente precisa delas para perceber como interagir. E os campos obrigatórios têm de estar assinalados como tal: saber antes de submeter o que é obrigatório facilita o preenchimento a qualquer pessoa, com ou sem tecnologia de apoio.
Uma síntese para marcar à mão
| Verificação | O que procurar |
|---|---|
| Texto alternativo | Cada imagem com finalidade tem um «alt» que a descreve; as decorativas não obrigam a leitura |
| Título da página | Título único e informativo no separador, com o essencial em primeiro lugar |
| Cabeçalhos | Hierarquia marcada no código; lida em sequência, desenha o índice da página |
| Contraste | Texto, elementos interativos e gráficos legíveis face ao fundo |
| Ligação de salto e foco | «Skip link» como primeiro elemento interativo; foco sempre visível ao tabular |
| Língua e zoom | Língua principal identificada; conteúdo legível e utilizável quando ampliado |
| Multimédia | Legendas no vídeo, transcrições disponíveis, audiodescrição quando a imagem transporta informação |
| Formulários | Etiquetas junto de cada campo; obrigatórios assinalados antes do envio |
O rasto português destas verificações
Estas perguntas têm história em Portugal. Em agosto de 1999, o Conselho de Ministros aprovou a Iniciativa Nacional para os Cidadãos com Necessidades Especiais na Sociedade da Informação e tornou obrigatório que os sítios dos organismos públicos na internet respeitassem requisitos de acessibilidade a cidadãos com necessidades especiais — Portugal foi o primeiro país europeu e o quarto no mundo a adotar este tipo de regras. Nesse mesmo ano foi criada, no Ministério da Ciência e da Tecnologia, a Unidade Acesso, mais tarde integrada na UMIC – Agência para a Sociedade do Conhecimento, I.P., a entidade pública que coordenou as políticas para a sociedade da informação entre 2005 e 2012.
A exigência ganhou prazos a 27 de setembro de 2007, quando uma Resolução do Conselho de Ministros fixou orientações de acessibilidade para os sítios do Governo e da Administração Central na internet: conformidade com o nível «A» das diretrizes do W3C num prazo de três meses e com o nível «AA», para os sítios com serviços transacionais, num prazo de seis meses.
A prática acompanhou a norma. A UMIC desenvolveu a partir de 2005 o eXaminator, um validador automático das diretrizes que produzia diagnósticos informativos em português, e o Web@x, um sistema de validação de todas as páginas de um domínio que atribuía um índice global de acessibilidade; sobre eles assentou a Certificação de Acessibilidade da UMIC, disponibilizada em 2009. O próprio percurso da agência mostra o que uma revisão corrige: os cinco sítios que mantinha em 2005 estavam longe de satisfazer sequer o nível «A»; no primeiro trimestre de 2008, o sítio principal estava entre os primeiros portugueses com conformidade completa «AAA» em todas as páginas e, em 2009, já eram dez os sítios da UMIC nesse nível — situação mantida para os onze sítios seguintes. O portal da Caixa Geral de Depósitos, com mais de 2.800 páginas, remodelado com o apoio da equipa ACESSO da UMIC e do eXaminator, tornou-se o primeiro sítio privado de grande dimensão a satisfazer completamente as diretrizes do W3C.
Foi ainda a UMIC que encomendou a tradução portuguesa das WCAG 2.0 – Web Content Accessibility Guidelines, as diretrizes de acessibilidade do conteúdo web aprovadas pelo W3C a 11 de dezembro de 2008: publicada a 25 de fevereiro de 2009, fez do português a terceira língua em que as diretrizes foram publicadas no mundo, depois do inglês original e do húngaro. A página do Programa Acesso que documentava este percurso registava a sua última atualização a 1 de fevereiro de 2011 — um ano antes de a agência ser extinta.
Um quarto de hora sobre o próprio sítio
A aplicação imediata cabe num quarto de hora: abrir a página inicial do próprio sítio, premir Tab e percorrer tudo o que é interativo, anotando onde o foco desaparece; ler depois o título no separador e os cabeçalhos como se fossem um índice; por fim, ampliar a página e procurar as imagens sem texto alternativo. O documento original, «Easy Checks – A First Review of Web Accessibility», da WAI/W3C, detalha cada verificação, em inglês.
Para perceber a quem beneficia cada uma destas correções, a leitura continua no texto sobre o que é a acessibilidade web; para a fase seguinte, a de corrigir o texto, há o guia sobre como escrever de forma acessível. A história completa das regras portuguesas está no texto sobre o Programa Acesso e a acessibilidade no Estado. Este artigo pertence ao caderno inclusão digital.