
Escrever de forma acessível é, antes de mais, escrever de forma previsível: quem lê com os olhos percebe a página pelo aspeto, mas quem lê com um leitor de ecrã depende do que está escrito e de como está marcado. A Web Accessibility Initiative (WAI), do W3C – World Wide Web Consortium, publicou um conjunto de conselhos de escrita para uma web mais acessível, dirigido a quem começa e ligado, ponto a ponto, aos requisitos das Directrizes de Acessibilidade para o Conteúdo da Web (WCAG). São sete conselhos — título da página, cabeçalhos, texto das ligações, alternativa às imagens, transcrições e legendas, instruções e linguagem simples — que este artigo resume com os exemplos da própria página, antes de recordar como o Estado português os foi pondo em prática.
Títulos de página que dizem onde se está
O primeiro conselho é dar a cada página um título curto, informativo e único, que descreva o conteúdo e a distinga das restantes. Na prática, o título da página é muitas vezes o mesmo que o cabeçalho principal, e a informação única vem primeiro: o nome da página antes do nome da organização. Nas páginas que fazem parte de um processo com vários passos, o passo atual entra no título. Os exemplos da página da WAI, construídos com uma empresa imaginária de ursos de peluche, mostram o padrão:
- «Space Teddy Inc.» — título da página inicial;
- «Últimas Notícias • Space Teddy Inc.» — o nome da página à frente do nome da organização;
- «Comprar o Urso (Passo 1 de 3) • Space Teddy Inc.» — o passo incluído no título de um processo.
É o critério 2.4.2 das WCAG («Page Titled», na designação original) traduzido num gesto de redação: quem tem vários separadores abertos — e quem navega com tecnologia de apoio — sabe sempre em que página está.
Cabeçalhos que dão estrutura, não só tamanho
O segundo conselho pede cabeçalhos curtos que agrupem parágrafos relacionados e descrevam claramente cada secção, desenhando o esqueleto do conteúdo. Em documentos com mais de três ou quatro parágrafos, cabeçalhos e subcabeçalhos são importantes para a usabilidade e a acessibilidade: permitem perceber a organização global e saltar diretamente para a informação procurada. Há seis níveis de cabeçalho; o nível 1 corresponde em geral ao título da página ou da secção principal.
O ponto técnico é decisivo: um leitor vê o cabeçalho pelo tamanho da letra, mas quem usa tecnologia de apoio não vê essa diferença — o cabeçalho tem de estar marcado de forma semântica para que a tecnologia o identifique e o possa usar para navegar. É por isso que a página da WAI descreve os cabeçalhos como uma das ferramentas mais importantes para os utilizadores de leitores de ecrã descobrirem o que há numa página. Os critérios associados são o 2.4.6 («Headings and Labels»), o 2.4.10 («Section Headings») e o 1.3.1 («Info and Relationships»); a própria página indica que este conselho foi adaptado de um documento da Penn State sobre cabeçalhos e subcabeçalhos.
Ligações que se percebem fora do contexto
O terceiro conselho é escrever textos de ligação que descrevam o destino. «Clique aqui» e «leia mais» não dizem nada a quem ouve uma lista de ligações lida fora da frase; o texto deve anunciar o que está do outro lado — incluindo, quando é relevante, o tipo e o tamanho do ficheiro, como no exemplo «Documentos da proposta (RTF, 20 MB)». Os critérios citados são o 2.4.4 («Link Purpose (In Context)») e o 2.4.9 («Link Purpose (Link Only)»): no nível mais exigente, a ligação tem de se bastar a si própria.
Imagens com texto alternativo, multimédia com transcrição
O quarto conselho: para cada imagem, escrever um texto alternativo que transmita a informação ou a função dessa imagem — e, para imagens puramente decorativas, não escrever texto alternativo nenhum. O exemplo da página vem de um manual de telemóvel: junto da frase «ligue o telefone a uma tomada, usando o cabo e o adaptador fornecidos», o texto alternativo «a carregar o telefone» nada acrescenta, enquanto «ligue o cabo à extremidade inferior do telefone» diz o que a imagem ensina. É o critério 1.1.1 («Non-text Content»).
O conselho seguinte trata do som e do vídeo: conteúdos só de áudio, como um podcast, pedem uma transcrição; conteúdos com áudio e imagem, como vídeos de formação, pedem também legendas. Transcrições e legendas incluem a informação falada e os sons importantes para a compreensão — o exemplo dado é «a porta range» — e as transcrições de vídeo descrevem o conteúdo visual relevante, como «Athan sai da sala». São os critérios 1.2.2 («Captions (Prerecorded)») e 1.2.3 («Audio Description or Media Alternative (Prerecorded)»).
Instruções e mensagens de erro sem ambiguidade
O sexto conselho cobre instruções, orientações e mensagens de erro: devem ser claras, fáceis de entender e sem linguagem técnica desnecessária, descrevendo os requisitos de cada campo — por exemplo, o formato de uma data. Em vez de deixar o utilizador adivinhar, o formulário anuncia «a senha deve ter pelo menos seis caracteres, com pelo menos um número (0-9)»; e quando algo falha, a mensagem diz o que está errado e como corrigir: «o nome de utilizador «superurso» já está em uso; a senha precisa de incluir pelo menos um número». O critério associado é o 3.3.2 («Labels or Instructions»).
Frases curtas, palavras simples, siglas explicadas
O último conselho junta vários gestos de linguagem: frases e parágrafos curtos e claros, palavras simples em vez de construções desnecessariamente complexas, siglas desenvolvidas na primeira utilização — como este artigo fez com «Directrizes de Acessibilidade para o Conteúdo da Web (WCAG)» —, um glossário para os termos menos conhecidos, listas sempre que ajudam e, quando clarificam o sentido, imagens, ilustrações, vídeo, áudio e símbolos.
A página da WAI exemplifica com um texto administrativo de seguradora: em vez de um único parágrafo que enumera quatro desfechos possíveis de um pedido de indemnização, a versão acessível escreve «se tiver um acidente de carro, o nosso agente investiga; as conclusões determinam o pagamento» e lista os resultados:
- pedido aprovado — pagamento integral;
- parcialmente aprovado — pagamento reduzido;
- por determinar — são precisas mais informações;
- rejeitado — sem pagamento.
Este conselho corresponde aos critérios 3.1.5 («Reading Level»), 3.1.3 («Unusual Words») e 3.1.4 («Abbreviations»). A página liga-o ainda a histórias de utilizadores — um empregado de introdução de dados com autismo, uma adepta de basquetebol com síndrome de Down, um estudante com perturbação de hiperatividade com défice de atenção e dislexia — e ao recurso «Use Clear and Understandable Content», que aprofunda a escrita para pessoas com incapacidades cognitivas e de aprendizagem.
Os sete conselhos e os critérios WCAG, lado a lado
| Conselho | Critérios citados na página |
|---|---|
| Título de página informativo e único | 2.4.2 «Page Titled» |
| Cabeçalhos com significado e estrutura | 1.3.1 «Info and Relationships»; 2.4.6 «Headings and Labels»; 2.4.10 «Section Headings» |
| Texto de ligação com significado | 2.4.4 «Link Purpose (In Context)»; 2.4.9 «Link Purpose (Link Only)» |
| Texto alternativo para as imagens | 1.1.1 «Non-text Content» |
| Transcrições e legendas para multimédia | 1.2.2 «Captions (Prerecorded)»; 1.2.3 «Audio Description or Media Alternative (Prerecorded)» |
| Instruções claras | 3.3.2 «Labels or Instructions» |
| Conteúdo claro e conciso | 3.1.3 «Unusual Words»; 3.1.4 «Abbreviations»; 3.1.5 «Reading Level» |
Em Portugal, a escrita acessível foi regra do Estado
Muito antes de estes conselhos circularem na forma atual, Portugal tinha feito da acessibilidade dos sítios públicos uma obrigação. A Unidade Acesso – Acessibilidade a Cidadãos com Necessidades Especiais à Sociedade de Informação foi criada em 1999, na sequência da aprovação pelo Conselho de Ministros, em agosto desse ano, da Iniciativa Nacional para os Cidadãos com Necessidades Especiais na Sociedade da Informação e da obrigatoriedade de os sítios dos organismos públicos na Internet respeitarem requisitos de acessibilidade: segundo a página da época, Portugal foi o primeiro país europeu e o quarto no mundo a adotar regras deste tipo. A Unidade Acesso viria a ser integrada na UMIC – Agência para a Sociedade do Conhecimento, I.P., onde o seu trabalho prosseguiu no Programa Acesso, a que dedicamos outro texto.
A exigência foi sendo afinada. A 27 de setembro de 2007, uma Resolução do Conselho de Ministros estabeleceu orientações para a acessibilidade dos sítios do Governo e da Administração Central na Internet: conformidade com o nível «A» das diretrizes do W3C no prazo de três meses e com o nível «AA», para os sítios com serviços transacionais, em seis meses. No primeiro trimestre de 2008, o sítio principal da UMIC foi dos primeiros portugueses a garantir a conformidade completa de todas as páginas com o nível «AAA»; em 2009, os dez sítios que a agência mantinha estavam todos conformes — quando os cinco que existiam em 2005 ficavam longe até do nível «A».
Do lado da norma, as WCAG 2.0 foram aprovadas a 11 de dezembro de 2008, ao fim de vários anos de um processo aberto com participação mundial; a UMIC encomendou a tradução portuguesa, disponibilizada publicamente a 25 de fevereiro de 2009 — a terceira língua em que as novas diretrizes foram publicadas no mundo, depois do inglês original e do húngaro. Do lado das ferramentas, o validador automático eXaminator, desenvolvido pela UMIC desde 2005 para dar diagnósticos em português, alimentou o Web@x, que atribui um índice global de acessibilidade a todo um domínio, e a certificação dinâmica disponibilizada em 2009: os sítios da UMIC e o portal da CGD foram os primeiros a apor o selo, e o novo portal da CGD, com mais de 2.800 páginas, tornou-se o primeiro sítio privado de grande dimensão — e de uma grande instituição financeira — a satisfazer completamente o nível «AAA». O Programa Acesso apoiava ainda a Rede Solidária, criada em abril de 2001 e composta por mais de duzentas organizações não-governamentais.
E a escrita acessível via-se nas próprias páginas. A captura de julho de 2011 da página do Programa Acesso — atualizada pela última vez a 1 de fevereiro desse ano e conservada no Arquivo.pt — abre com uma nota dirigida a quem navega com tecnologias de apoio, que lista os três elementos principais e as respetivas teclas de atalho (motor de busca na tecla 1, destaques na 2, menu principal na 3), e traz ligações «D» para a descrição longa dos logótipos de certificação. São os mesmos gestos que a WAI recomenda, praticados por quem aconselhava a administração sobre acessibilidade — a UMIC encerraria em 2012, sucedendo-lhe a FCT a partir de 1 de março desse ano na coordenação das políticas para a sociedade da informação, percurso que contamos no texto sobre o que fez a UMIC entre 2005 e 2012.
O gesto concreto fica assim desenhado: abrir a página mais visitada do próprio sítio e percorrê-la por esta ordem — o título diz onde se está? os cabeçalhos formam um esqueleto legível? as ligações percebem-se sozinhas? cada imagem tem o texto alternativo que lhe corresponde? É o primeiro passo de uma primeira revisão de acessibilidade, que detalhamos noutro texto; para o enquadrar, vale a pena ler o que é a acessibilidade web, e para confirmar como estas páginas históricas se apresentavam, a pesquisa é a do Arquivo.pt. Este artigo pertence ao caderno inclusão digital.